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“É essencial para mim que o enredo dos meus personagens não seja apenas sobre sair do armário”, afirma Eduardo Ribeiro Dias

Tempo de leitura: 4 minutos

“É essencial para mim que o enredo dos meus personagens não seja apenas sobre sair do armário”, afirma Eduardo Ribeiro Dias

Escritor vai além dos dramas relacionados à descoberta da sexualidade em ficção LGBTQIA+

 

Consumidor de leituras nacionais e internacionais com personagens LGBTQIA+, Eduardo Ribeiro Dias, professor de inglês graduado pela Universidade Estadual de Montes Carlos, tinha uma certeza quando decidiu escrever o primeiro romance, Sobre Pedras e Flores: os enredos dos personagens queers iriam para além da descoberta e dores da sexualidade.

 

Para além da experiência pessoal ao se assumir gay, o autor relembra os motivos desta escolha e compartilha este e outros detalhes da relação com a escrita na entrevista abaixo. Confira:

 

1. Sobre Pedras e Flores é a sua estreia na literatura. Como começou a sua relação com a escrita?

 

Eduardo Ribeiro Dias: As primeiras lembranças que tenho de gostar do processo de escrita foi já na infância, nas atividades de redação da escola. Me saía bem na maioria de escrita criativa, fossem poemas, histórias curtas ou crônicas. Recebia elogios das professoras naquela época e acho que isso foi muito importante para me dar ânimo para acreditar no meu potencial. Quando adolescente, enquanto lidava com questões internas, escrevi diversos poemas que acabei perdendo ou deliberadamente jogando fora, com medo que alguém os visse. Então, criei um blog, quando tinha 19 ou 20 anos, para postar textos autorais. Não postei muitas coisas lá, mas também vejo este um passo importante para manter o amor pela escrita vivo.

 

2. A obra não é um livro sobre uma história real, mas alguns fragmentos dele foram inspirados em experiências/diálogos que aconteceram com você. Como foi este processo de levar para a narrativa algo que foi doloroso quando viveu?

 

E. D.: Catártico. Lembro-me de sentar para começar a escrever e visualizar a cena inicial do diálogo do Elias com o Pai de uma forma diferente da versão final, mas não parecia fazer sentido para aqueles personagens. Daí, coloquei uma música e comecei a escrever a cena do mesmo ponto em que tinha imaginado, mas deixando que as palavras fossem saindo mais soltas, até perceber que estava descrevendo parte da conversa que tive com minha mãe aos 20 anos de idade, em um quarto um pouco mais iluminado e de portas abertas. Parei de escrever na metade e chorei. Um sentimento semelhante veio em outros momentos. Como disse algumas outras vezes, a história é fictícia, mas vários dos sentimentos vividos pelos personagens foram vividos por mim ou por alguém próximo. Eu nunca fui a um aeroporto me despedir de alguém que ia de mudança para algum lugar distante, mas tive amigos me acompanhando na rodoviária quando deixei minha cidade, no norte de Min Minas, para morar no sul do Brasil, e também me despedi, aos prantos, de amigos que trabalharam comigo em um navio de cruzeiro, sem saber quando os veria de novo. Estas e outras lembranças serviram de inspiração para o que acontece no livro.

 

3. Você costuma consumir literatura LGBTQIA+ nacional? O que era essencial ter no seu livro para além do despertar da sexualidade?

 

E. D.: Esta é uma ótima pergunta. Sim, consumo literatura LGBTQIA+ nacional, principalmente de autores independentes ou novatos, já que a literatura mais mainstream ainda é muito limitada quando se trata de representatividade LGBTQIA+. Para o mim, era essencial, e ainda é, que meus personagens não sejam limitados ao descobrimento da sexualidade ou ao “sair do armário”. Busquei criar personagens que refletem a complexidade que todos somos. A sexualidade é apenas um ponto na vida de uma pessoa. Sim, um ponto importante, sem dúvida, mas não o único, e sinto que, na maioria das vezes, estes outros pontos não são trabalhados na mídia mainstream. Eu precisava mostrar que aqueles personagens também sofrem com perdas, com dúvidas em relação à carreira, com problemas familiares que vão além de sua sexualidade. Que eles têm sonhos. Têm hobbies, se divertem, se emocionam, se sentem sozinhos e também criam laços fortes que vão muito além do sexo ou romance.

 

4. Outras histórias já foram escritas, Eduardo? Há previsão dos leitores conhece-las assim como Sobre Pedras e Flores?

 

E. D.: Ainda não. Tenho várias histórias que imaginei e ainda imagino cenas todos os dias. Algumas darão livros interessantes, acredito eu. Comecei a trabalhar em uma segunda história, que ainda não tem título, mas ainda está na fase inicial. Acredito e espero que no próximo ano ela já possa ser compartilhada com quem tiver interesse em conhecer outros personagens tão complexos quanto os que trouxe em Sobre Pedras e Flores.

 

5. Qual a principal mensagem que você deseja passar aos leitores deste lançamento?


E. D.: Bem, não é apenas uma. Isaac e Elias têm vivências muito diferentes um do outro e cada um traz uma mensagem distinta, embora ambas estejam ligadas ao autoconhecimento. Uma delas é sobre o impacto das escolhas do nosso passado, sobre como elas nos influenciam no presente e o quão importante é entendê-los, aceitá-los e enfrentá-los para não deixar que nossos demônios controlem ou ditem o que somos hoje. A segunda é que todo mundo se sente um pouco perdido, em algum momento, de um jeito ou de outro, e que não há nada de errado em não ter as respostas pra tudo ou perder as rédeas da vida às vezes. Até porque, ter controle sobre a vida é uma ilusão. Podemos fazer planos diversos e segui-los por muito tempo, mas o que acontece quando algo muda e os planos feitos antes não se encaixam ou não fazem mais sentido? A possibilidade de se reinventar deve estar presente em nossa vida, e autoconhecimento é fundamental para entender os momentos em que esta necessidade surge.

 

Para ler o release completo da obra “Sobre Pedras e Flores”, clique aqui.

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