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Um olhar esquizoanalítico na literatura

Tempo de leitura: 5 minutos

Um olhar esquizoanalítico na literatura

Campo de saberes dos filósofos Deleuze e Guattari está presente em ficção brasileira Não Branco Não Homem, que traduz ideias filosóficas numa história ficcional

 

O arquiteto, músico, empresário e escritor Toni Grado começou a se aventurar na literatura em 1997, quando começou a escrever Não Branco Não Homem que teve como inspiração inicial os escritos de esquizoanálise, campo dos saberes filosóficos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, que abordam o recorte produtor do novo e do desejo revolucionário.

 

Dez anos depois, Toni tinha em mãos mais de 200 páginas “que ninguém entendia”, exceto ele. Em 2009, iniciou-se o projeto de Não Branco Não homem, uma tentativa ficcional de tradução daqueles conceitos filosóficos. “Parecia que nunca alcançaria o topo do Himalaia que eu me havia imposto, mas em 2017 finalmente concluí o romance”, admite. Abaixo, você confere mais sobre o lançamento sobre esse thriller político que traduz ideias filosóficas numa história ficcional.

 

1. Por que você decidiu entre tantos gêneros escrever este? Teve algum escritor ou escritora como inspiração?

 

Toni Grado: Meu grande sonho sempre foi conseguir alcançar o máximo de conteúdo com o mínimo de complicação para o meu leitor. Os mitos da humanidade e a tradição oral de transmissão de conhecimento desde tempos imemoriais sempre abraçaram o formato da história narrada para esta finalidade. Todas as religiões são ótimas contadoras de histórias. É como se, enquanto o nosso cérebro está ocupado em descobrir o que vai acontecer aos protagonistas, ele fosse mais receptivo para receber o verdadeiro conteúdo. Essa tradição desembocou no romance modernos, nos filmes e nas histórias em quadrinho. Meu livro acontece no registro do thriller político, mas correto seria considerá-lo um “crossover”, um híbrido. Do ponto de vista do conteúdo, o livro de filosofia Anti Édipo, de Deleuze e Guattari, foi uma grande inspiração ao se interessar pelos processos desejantes que levam à ruptura revolucionária. A minha história é atravessada pela revolução em vários níveis, desde o mais óbvio, que é o político (há uma eleição numa metrópole), até o pessoal e sexual (há uma história de amor improvável). Como forma, honestamente não segui ninguém em especial. Procurei ser conciso e claro como num texto jornalístico ou como num roteiro cinematográfico.

 

2. Quando e como surgiu sua paixão pela escrita?

 

Toni Grado: Eu diria que desde que minhas lembranças de cadernos repletos de textos remontam aos meus quinze anos. Eu preciso escrever para organizar as ideias ou exorcizar os meus demônios. A escrita é para mim um remédio, um processo terapêutico onde eu exercito a razão e a resistência à loucura. Vai daí que nunca tive problema de bloqueio criativo, mas sim de disenteria mental, produzindo muita coisa, frequentemente não muito boa. Esse romance foi reescrito várias vezes e muito editado, me lembro de gastar mais tempo relendo e cortando do que escrevendo. E isso tudo (ainda) acabou ficando com 4 volumes.

 

3. Quais são os desafios de ser escritor(a) no Brasil?

 

Toni Grado: Se você para pra pensar, é difícil não ter uma relação de amor e ódio com o Brasil. De ódio, porque o Brasil odeia todo mundo que cria alguma coisa, de literatura e artes até inovações tecnológicas. Como uma esfinge barrando a passagem dos viajantes incautos, o Brasil testa qualquer criador de qualquer coisa até os seus limites. Acho que estou querendo dizer que, mais do que os desafios costumeiros presentes em qualquer parte, ser publicado, ser distribuído, vender, ser pago, ser lido, o maior desafio aqui é você acreditar em si mesmo como alguém que possa fazer a diferença. Por outro lado, há algo de mágico no Brasil, algo que não se encontra em lugar nenhum, uma alegria de viver, uma esperança em não sei o que, uma leveza no existir.

 

4. Como surgiu a inspiração para criar este livro? Qual foi a motivação?

 

Toni Grado: Era para ser um livro de filosofia. Quando este livro alcançou um tamanho razoável, eu testei com alguns amigos. Uma das ideias delirantes era que, para inserir a vontade e o livre arbítrio no mundo determinista da ciência, teríamos de considerar a hipótese de que todos nós vivemos o tempo tanto do passado para o futuro, como do futuro para o passado. Mas a memória, tanto do universo como a nossa própria, só registra uma parte dessa história. Ou seja, a realidade é caótica, a memória é que arruma as coisas. Ninguém entendeu nada, o que me deixou muito inseguro, até porque minha formação acadêmica é arquitetura, não filosofia. Me imaginei crucificado. Muito risco para pouco embasamento. Além disso, na melhor das hipóteses, era um livro hermético e chato. Abortei e me coloquei o desafio de traduzir as ideias filosóficas numa história ficcional.

 

5. Você fez alguma pesquisa para escrever o livro, qual? Quanto tempo levou para escrevê-lo?

 

Toni Grado: A partir de meus estudos de filosofia, psicanálise e história da ciência, escrevi por 11 anos a tal obra filosófica de onde saiu o romance. Depois reiniciei como romance em 2009 e parecia que eu não terminaria nunca, até que em 2015 eu descobri que tenho Parkinson. Isso acelerou o processo e terminei os 4 volumes em 2017. Um total de 19 anos.

 

6. Você escreveu essa obra pensando em qual público-leitor?

 

Toni Grado: Para ser sincero, em nenhum, na verdade. O que não quer dizer que eu escrevi só para mim mesmo. O que eu fiz foi emular ou me sintonizar com estilos e artistas que tiveram grande público ao longo da história da arte das últimas décadas, e com quem eu me identificava. Exemplo, Beatles. No cinema, me sintonizei com as comédias românticas americanas das décadas de 1930-40, as fantásticas Screwball Comedies onde o personagem feminino é que comanda as ações e desafia o co-protagonista masculino. Muito à frente de seu tempo, a história de amor entre Não Homem e Não Branco não existiria sem elas. Me utilizei de muitas referências de obras de grande público torcendo para dar certo.

 

7. Além de escritor você é músico. Conte-nos como foi gravar o álbum que é uma espécie de trilha sonora do seu livro?

 

Toni Grado: Como eu escrevo e toco todos os dias (escrevo de manhã e toco à noite) o processo de acoplagem de um no outro foi completamente natural. E não intencional, a princípio. Eu me dei conta que estava compondo para o livro ao longo do processo. É como se a única música que eu fosse capaz de fazer ali era a que cabia no texto. E vice versa. Por último, sou apaixonado por trilhas sonoras. Alexandre Guerra, meu amigo, parceiro no Duo de Dois, é compositor de trilhas sonoras e arranjador e inclusive fez dois belíssimos arranjos de big band para este meu álbum.

 

8. Conte um pouco da sua carreira como músico e como as carreiras de escritor e músico se cruzam?

 

Toni Grado: Comecei a tocar piano aos 19 anos e foi algo meio louco. Sempre teve piano na casa da minha mãe, minhas irmãs estudavam e tal, mas para mim era como se ele não estivesse lá. Um dia sentei na banqueta e tentei tirar a parte de piano de “Imagine”, de John Lennon. Consegui, depois de umas três horas. Fui estudar clássico e jazz. Nunca mais deixei de tocar todos os dias até hoje, pelos próximos 40 anos. Meu prazer em tocar, compor, escrever e criar todos os dias é tão recompensador que às vezes eu penso que isso me basta.

 

Para acessar o release do livro “Não branco, Não Homem” clique aqui!

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