Por: Caio Garrido
Quem reabre um debate cósmico, que se dá entre humanos, e entre humanos e deuses, merece destaque no panteão dos grandes autores. Christopher Nolan resgatou – como tantos outros antes tentaram – essa grande obra da literatura universal chamada “Odisseia”, talvez pela primeira vez com sucesso em uma adaptação para o cinema. Especialistas lembram-nos que se trataria de uma interpretação ou releitura. Segundo a professora de literatura grega da USP, Giuliana Ragusa, o filme seria uma leitura autoral de Nolan.
A potência existencial de Odisseia
Como não tenho a competência, o estudo e os elementos em mãos no momento, além da memória fresca – li a Odisseia há mais de quinze anos – não vou me meter na seara da desafiante “leitura” comparada entre as duas obras, a do cinema e a original. Vou me ater ao que Nolan apresentou, com ênfase em seu recorte cinematográfico, que acaba salientando alguns desses elementos e deixando pelo caminho uma série de peças importantes e integrantes, mortas e abandonadas pelas estradas de suas escolhas artísticas, que cobram por meio das críticas que vem recebendo, como os companheiros de Odisseu, soçobrando desde o Reino de Hades, e o lembrando de suas falhas.
Entre possíveis erros e acertos nessas escolhas, fico com os acertos, dado que só o fato dele levantar o debate sobre a obra, colocá-la novamente em pauta e ao mesmo tempo infundir novamente no espírito da gente desse tempo a potência existencial ali presente já se trata de um grande feito.
Odisseu e o retrato dos conflitos humanos
Como obra fílmica, esse novo “canto” é potente e avassalador, como Poseidon, o deus dos mares. O belo conjunto de sons estratosféricos em consonância às imagens produzidas nos passa verossimilhança, como é o caso do episódio do monstro Ciclope, com seus urros desconcertantes. E o que eu enfatizaria no relevo de seus recortes é o impacto emocional que os atores/personagens imprimem no filme. Que força é essa que joga homens contra outros homens e que nunca obtém satisfação? Que nome se dá para a jogatina eterna entre a arrogância dos homens e a fúria vingativa ou sábia dos deuses?
A jornada de um herói como Odisseu só pode ser ainda retratada numa tela branca cheia de imagens – como as de bichos lutando com homens nas cavernas acesas por fogo – porque tem alguma conexão com nós mesmos, e tem muito a dizer para os nossos tempos e para os nossos homens e mulheres, palavras ainda provavelmente nunca escutadas.
Vivemos de fuga em fuga para refúgios baratos, em que outras imagens de pior espécie e escalão vão compondo a matéria de nossos dias. Vamos ficando tontos e perdidos sem saber mais o norte de nossos reais destinos, desviados e desviando por mil estímulos, mais fortes que qualquer força de vontade e esperança. Tais descaminhos derrubam mais do que aqueles que derrubaram Odisseu. Somos tontos de vontade e no fundo desestimulados pela mente fraca – coletiva e social – que nos compõe. Vivemos desperdiçando nosso tempo e atenção, nos distraindo com toda sorte de sereias sem encanto algum.
A necessidade de se render ao destino
Homens de pouca fé são os que reinam e se submetem por aqui nessas bandas. Havemos então de aprender com Odisseu, herói em extinção, pois é aquele tipo de homem que no tempo certo percebe sua arrogância e pequenez. Sabendo que não controla o destino de seus homens, se conscientiza de seus horrores e os deles, como na cena em que Calipso, antes de Odisseu se dirigir de volta à sua casa, diz a ele, o advertindo para a impossibilidade de controlar o destino: “Você é um homem que precisa controlar seu destino. Mas você não pode controlar isso. Você deve se entregar à tempestade e aceitar sua punição. Desista da luta, desista do controle e viva. É um salto de fé que você ainda não deu, Odisseu.”
Ele acaba por se encontrar com algum limite – como no Mito da Torre de Babel – sempre muito atual –, em que os homens não podem alcançar o divino e são condenados a um martírio sem fim. Para se alcançar o divino é preciso se depurar das máculas identificatórias ao mundo instintivo irracional e inconsequente.
Sentido maior para a própria existência
A eloquência dos cantos da Odisseia no filme está em ditar isso tudo de forma subliminar e em forma de “tempestade”. Os homens que parecem buscar incessantemente sua própria desdita em forma de pilhagem, mortes inescrupulosas e cruéis em função de uma besta injunção que justifica tudo pela sobrevivência de um povo ou de um progresso sempre relegado a um futuro inalcançável, parecem não ser tão estúpidos quando vistos através de um olhar em que, no fundo, estariam eles em busca de algum significado maior. Estão inconscientes dessa busca e desse significado, ainda que se atirem uns contra os outros, como se fosse a coisa mais importante a se fazer nesse pequeno vestíbulo do universo.
Estamos todos em busca de sentido.
Mesmo aqueles homens que ali lutam – e cometem todo o tipo de atrocidades – parecem esperar, inconscientemente, encontrar significado simbólico para o que nem sabem que buscam.
Sobre o autor: Caio Garrido é psicanalista, mestre em Ciências pelo Programa Interdisciplinar em Ciências da Saúde pela Unifesp, na área de Psicanálise e Psicologia Social. Autor de oito livros, sendo um deles “O Sonho como Despertar Social: por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno”, publicado pela ed. INM.



