Por Edival Lourenço
Terra, água, fogo e ar são os quatro elementos clássicos do suporte da vida. “Num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” como na música de Jorge Ben Jor, nenhum desses elementos deveria faltar a seus habitantes. No entanto, não é isto que a realidade nos mostra.
Foquemos no elemento terra: planícies, matas e chapadões a perder de vista. Seis biomas riquíssimos nas extensões continentais. Cada qual com sua especificidade e vocação econômica. Todos pródigos no acolhimento à vida. Mas a ocupação da terra sempre foi gerida por uma elite sovina, reservando-a para si, para a parentela e seus chegados.
Sua distribuição começou com as Capitanias Hereditárias, com terras de graça aos apaniguados do rei de Portugal. As capitanias, ou a natureza nelas, foram sendo desdobradas em sesmarias, latifúndios e fazendões escravagistas. Esse modelo perverso prevaleceu por quase 400 anos. Durante sua vigência, a terra era teoricamente de graça. Mas só para quem pudesse adquirir escravizados e produzir, preferencialmente, commodities de exportação, para alimentar a Europa, no modelo colonial que ficou conhecido como Plantation.
Em contrapartida à abolição da escravatura, em 1888, houve o aprisionamento da terra. Os ex-escravizados, e o povo de um modo geral, detinham a força do próprio trabalho para o cultivo, mas não dispunham dos recursos necessários para comprar a terra. Os recém-libertos tornaram-se mão de obra precária, numa condição de vida, às vezes, até pior do antes.
Da Lei Áurea, até nossos dias, a terra continuou nas mãos dos latifundiários, e os trabalhadores sem-terra, a não ser uns poucos atendidos ultimamente pela timidez da reforma agrária, continuam carentes de uma nesga de terra para viver.
Nos anos 60 do século passado, eu me lembro, meus pais eram trabalhadores em fazendas, como “agregados” – os sem-terra de então. Derrubava-se um talhão de mata, plantava o alimento de subsistência, dividia a produção com o proprietário e, no terceiro ano de cultivo, já semeava também o capim, para a formação de pastagem. E partia imediatamente para a preparação de outra gleba. Não havia vínculos de emprego, nem qualquer obrigação do fazendeiro para com o trabalhador. Mas o trabalhador era convocado, com frequência, para atender às necessidades laborais do fazendeiro.
Com a fundação de Brasília, a Marcha para o Oeste, a abertura de estradas, a entrada das máquinas, a expensão do capital via financiamentos para o que veio a ser conhecido como “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, houve uma expulsão repentina daqueles “agregados”. Eu tinha dez anos e foi a primeira vez que vi meu pai chorar. O fazendeiro, apoiado pelo capataz de revolver na cinta, deu 15 dias para a gente “desinfetar” as terras dele. Assim como nós, milhares de famílias foram desalojadas, num movimento social que ficou conhecido como “Êxodo Rural”. Sem aviso prévio, sem preparo algum, fomos jogados nas periferias das cidades, num ambiente hostil, conflagrado pela miséria e pelo descaso.
A pergunta que não quer calar: Até quanto esse elemento natural e tão farto, que é a terra, continuará sendo escasso para quem deveria de fato ter a primazia para cultivá-lo?
Edival Lourenço é escritor, advogado, vencedor do Prêmio Jabuti de 2012 e autor do livro “Um Palmo Ou Dois Acima do Chão”, uma autoficção que conta a jornada de um garoto do interior de Goiás e sua luta para aprender a ler



