Tenho observado as mulheres do meu convívio e, quase sempre, há nelas um mesmo traço discreto de cansaço. Não se trata de um esgotamento que paralisa, mas de algo mais sutil. Elas seguem trabalhando, cuidando, sorrindo, dando conta. Esse cansaço é incorporado, naturalizado como parte da vida adulta.
Ao olhar com cuidado, percebo que essa exaustão silenciosa não nasce apenas dos percursos individuais. Quando se repete em tantos corpos e histórias diferentes, isso aponta para algo coletivo: um desgaste produzido por um modo de vida marcado pela cobrança de produtividade excessiva, exigência de disponibilidade permanente e a ideia de que tudo precisa funcionar sem falhas.
É importante reconhecer: os homens também estão cansados, o ritmo contemporâneo é exaustivo para todos. Mas, a carga não se distribui de forma igual. As mulheres seguem sustentando a maior parte do trabalho de cuidado, da atenção emocional e da gestão da vida cotidiana. Trabalho que é, frequentemente, invisível e naturalizado. Elas são vistas como quem dá conta de tudo. São chamadas de guerreiras, mas esse elogio esconde uma armadilha perigosa, carrega uma forma sutil de normalizar a sobrecarga.
A maternidade intensifica esse processo de exaustão. Vivemos um paradoxo: enquanto essa experiência é solitária, também é, ao mesmo tempo, vigiada. Não basta cuidar, é preciso cuidar do jeito certo, sob os olhares julgadores e implacáveis. Mas qual jeito é o certo? Em tempos de influencers ditando regras, o maternar é carregado de dúvidas, comparações e culpas.
Nesse cenário, não surpreende que, às vezes, algumas mulheres manifestem o desejo de fugir para o mato. Não o mato, em sentido literal, obviamente (talvez até seja, em alguns casos), mas como um lugar simbólico, onde nosso tempo, nossas ações e nosso corpo sejam menos vigiados.
Na literatura, é possível encontrar validação e aconchego, como no livro Vale das Pitangueiras. O cansaço que todas sentimos está estampado nas páginas e não como resultado de um evento específico, mas de um acúmulo longo, silencioso e naturalizado de desgastes cotidianos. No romance, é evidenciada a necessidade de voltarmos para um lugar geográfico e metafórico. Em contato com a terra, no ritmo das estações, no silêncio e nas conversas com a uma avó, podemos encontrar um deslocamento possível para o cansaço acumulado.
Nem sempre temos um “Vale das Pitangueiras” para nos refugiar ou uma matriarca para pedir colo. Porém, é necessário se apegar num horizonte simbólico, um espaço possível de respirar, em contraposição ao ritmo sufocante do cotidiano. É o desejo de pausar sem sermos torturadas pela culpa. Entendendo a pausa não como fuga ou paralisia, mas como um ato de resistência, um gesto de reflexão que interrompe o automatismo e desloca a pergunta do “o que há de errado comigo?” para “o que há de errado na forma como estamos vivendo?”.
Reconhecer a exaustão como um contexto social, e não como falha pessoal, é um passo importante para aliviar o peso e abrir espaço para a partilha das responsabilidades e das tarefas que sustentam a vida cotidiana.
*Elenice Koziel – doutora em Estudos Literários e autora de Vale das Pitangueiras.





