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A normalização da violência começa no silêncio

Por Nanda Raupp

30 de março de 2026
Tempo de leitura: 2 mins de leitura

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A violência contra a mulher no Brasil não é um problema distante, restrito a manchetes de jornais ou às estatísticas dos relatórios oficiais. Ela acontece todos os dias, em casas parecidas com as nossas, em famílias que, muitas vezes, acreditavam estar protegidas. Os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmam uma realidade dolorosa: a maioria das agressões e dos feminicídios ocorre dentro de relações íntimas, onde deveria existir cuidado, respeito e afeto.
Casos extremos, como o de mulheres arrastadas por carros ou assassinadas após anos de ameaças, nos causam indignação momentânea. Mas, quando o choque passa, fica a pergunta que poucas vezes fazemos com profundidade: como chegamos até aqui? Em muitos desses relatos, há um padrão que se repete, sinais ignorados, agressões minimizadas, frases como “é só ciúme”, “foi um momento de raiva” ou “isso é coisa de casal”.
“Eu achava que precisava aguentar”, relatou uma mulher ao procurar ajuda após anos de violência. Essa frase, simples e devastadora, revela o quanto aprendemos desde cedo, conceitos distorcidos sobre relações, poder e afeto. Dentro de casa, ensinamos muito mais do que imaginamos, pelo que dizemos, pelo que toleramos e, principalmente, pelo que silenciamos.
Falar sobre a violência contra a mulher não é promover polêmica, mas assumir responsabilidade coletiva. É entender que esse tema diz respeito a todos: famílias, escolas, empresas e governo. Começa inclusive na forma como educamos nossos filhos. Ensinar meninos a lidar com frustrações sem agressividade e meninas a reconhecer sinais de abuso é um passo essencial para romper ciclos de violência. Mostrar, pelo exemplo, que conflitos podem ser resolvidos sem gritos, humilhações ou agressões.
Também é papel da família acolher, ouvir e acreditar. Muitas mulheres desistem de denunciar porque temem não serem levadas a sério. Por isso, divulgar canais como o Ligue 180 e reforçar que pedir ajuda não é fraqueza pode significar a diferença entre a vida e a morte.
A violência contra a mulher não nasce de um dia para o outro. Ela é construída, aos poucos, em ambientes onde o abuso é normalizado. Combater esse ciclo exige mais do que leis, exige empatia, educação e engajamento social. Somente quando entendermos que esse é um problema de todos nós, será possível transformar estatísticas em histórias de sobrevivência, dignidade e respeito.
*Nanda Raupp é administradora e autora do livro “Memórias de um passado”, romance inspirado em relatos reais de mulheres e experiências de silenciamento
Redação LC

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