A escrita como a conhecemos hoje surgiu com os fenícios por volta de 3.000 anos a.C., mas foram os sumérios que nos anos de 3.500 a 3.300 a. C. criaram a primeira forma de comunicação por escrito, através de símbolos cunhados em tábuas de argila (escrita cuneiforme). É deles também o “primeiro escritor”, na verdade, uma escritora, a Enheduanna, que viveu na Mesopotâmia (Iraque) lá pelo ano de 2.300 a. C.
Como a ancestral Enheduanna, cuja poesia foi caracterizada pela profundidade emocional (Rev. Pesq. Fapesp, 24.5.23), os escritores antigos e modernos, de um modo geral, sempre se valeram da emoção para criarem suas obras. Para o filósofo Aristóteles, a emoção não é apenas um sentimento, mas um processo que altera a forma de percebermos a realidade.
Processar emoções significa, portanto, aceitar sentimentos, em vez de reprimi-los, e transformá-los em atos e ações que modificam o comportamento do indivíduo em uma dada situação. Em seu livro The Power of Writing It Down (O Poder de Escrever), Allison Fallon vê a escrita como uma terapia pessoal, exatamente como Graham Greene que escreveu em seu livro de memórias Ways of Escape (Vias de Fuga): “A escrita é uma forma de terapia; às vezes me pergunto como todos aqueles que não escrevem, compõem ou pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico e do medo inerentes à condição humana”.
Autores como Charles Bukowski, poeta norte-americano e Emil Cioran, filósofo e escritor romeno, entre outros, chegaram mesmo a atribuir ao fato de escreverem à desistência de um suicídio.
Assim, não há dúvida alguma de que a escrita, como forma de expressão humana, é um poderoso instrumento para processar emoções, podendo ser considerada como terapia pessoal que auxilia a quem escreve a organizar seus pensamentos e a reduzir ansiedades.
Através do ato de escrever também é possível fazer as pazes com o tempo. Que o digam Érico Veríssimo e Marcel Proust, autores de obras monumentais sobre esse tema, O Tempo e O Vento e Em Busca do Tempo Perdido, respectivamente. Ambos exploraram o tempo, mas de um modo diferente, Veríssimo, em estilo épico, focalizou a formação histórica e familiar, Proust se fixou num tempo psicológico, na subjetividade da memória e da consciência.
Logo, a escrita pode, sim, ajudar a dar um sentido transcendental e apaziguante a essa coordenada fundamental do Universo que é o tempo, na medida em que permite revisitar o passado, ressignificá-lo e projetar o futuro para transformar sonhos em realidades.
*Walmir Luiz Becker é poeta e autor dos livros
“Fragmentos de Poesias – Desvivências” e “Entrelinhas”.





