Ely Carneiro de Paiva
A República brasileira estava prestes a completar oito anos quando um soldado encostou uma garrucha no peito do presidente Prudente de Morais e apertou o gatilho. Era 5 de novembro de 1897. A arma falhou. O marechal Carlos Machado Bittencourt, ministro da Guerra, avançou para defender o presidente e acabou morto a golpes de punhal. Prudente escapou por pouco.
O episódio pode ser visto como um trauma de infância da República. O novo regime, proclamado em 1889, ainda procurava definir sua identidade, consolidar suas instituições e afastar a tutela militar quando mergulhou numa polarização política que transformava adversários em inimigos e fazia da violência uma alternativa aceitável para parcelas da sociedade. O atentado foi o ponto culminante de uma crise que vinha sendo alimentada havia meses por disputas pelo poder, boatos, teorias conspiratórias, jornais partidários e a Guerra de Canudos.
Na época, a República já nascera dividida. Monarquistas continuavam politicamente ativos, mas a principal disputa ocorria entre os próprios republicanos. De um lado, setores civis pretendiam consolidar uma República constitucional e federalista, apoiada nas elites estaduais. De outro, os chamados jacobinos florianistas defendiam um governo forte e centralizador, com ampla participação dos militares, e cultivavam a memória de Floriano Peixoto, associado à imagem do governante capaz de impor a ordem pela força.
Prudente de Morais, primeiro presidente civil eleito pelo voto direto, tornou-se o principal símbolo dessa disputa. Discreto, contemporizador e inclinado à negociação, era ridicularizado pela oposição como “Prudente e Demorado”, “Prudente Demais” e “Prudente Demorais”. Sua tentativa de reduzir a presença militar no governo e os gastos do Ministério da Guerra reforçou entre os radicais a imagem de um presidente fraco e, pior, de um “inimigo do Exército e da Pátria”.
Foi nesse ambiente, já conturbado, que Canudos deixou de ser apenas um conflito distante no sertão baiano para se transformar em combustível da crise política nacional. Em janeiro de 1897, a Gazeta de Notícias publicou que Antônio Conselheiro e seus seguidores fariam parte de uma trama monarquista financiada pela Princesa Isabel e pelo Conde d’Eu, exilados na Europa. A conspiração era apenas uma suposição, mas ela se encaixava perfeitamente no clima político do momento.
Quando a terceira expedição enviada pelo Exército foi derrotada pelos sertanejos, a sensação de que a própria República estava ameaçada espalhou-se pelas ruas do Rio. Jornais monarquistas foram empastelados e o editor de um deles acabou assassinado. A fronteira entre notícia, propaganda e mobilização política tornava-se cada vez mais tênue. Naquele tempo, não existiam redes sociais, mas já existiam mecanismos muito conhecidos de radicalização: boatos repetidos até adquirirem aparência de verdade, teorias conspiratórias, retórica de ódio e meios de comunicação empenhados não apenas em informar, mas em destruir a legitimidade do adversário.
Em 5 de novembro, Prudente de Morais foi ao Arsenal de Guerra, no Rio de Janeiro, receber as tropas que retornavam de Canudos. Em meio à cerimônia, o soldado Marcelino Bispo de Melo aproximou-se do presidente e tentou atirar. A arma não disparou. Seguiu-se a luta na qual o ministro da Guerra seria mortalmente ferido.
Esse atentado alterou a política brasileira. Prudente, até então desgastado, recuperou sua popularidade e fortaleceu a candidatura de Campos Sales, que seria eleito seu sucessor. Com ele viria a Política dos Governadores e uma nova arquitetura de poder, baseada nas oligarquias estaduais, que marcaria a Primeira República, até 1930.
É tentador enxergar 1897 pelos olhos do presente, mas a comparação exige cautela. Aquela República possuía instituições frágeis, excluía mulheres e analfabetos do voto e sequer adotava o voto secreto. Não se trata, portanto, de procurar equivalências entre personagens ou movimentos políticos separados por mais de um século.
O que permanece inquietantemente reconhecível são os mecanismos da polarização: a divisão da sociedade em campos inconciliáveis, a transformação do adversário em inimigo, a circulação de notícias falsas, as teorias conspiratórias, o apelo a salvadores da pátria e a crença de que situações excepcionais justificam soluções extremas.
Talvez por isso 1897 possa ser chamado de um trauma de infância da República. Ainda criança, o novo regime experimentou quase todos os ingredientes que voltariam a assombrar sua vida adulta: ameaças de golpe, escândalos de corrupção, militarização da política, radicalização da imprensa, violência e a recusa em reconhecer legitimidade no adversário. Naquele 5 de novembro, o atentado deixou uma advertência que transpõe mais de um século: a polarização se torna verdadeiramente perigosa quando uma sociedade deixa de discutir quem deve governar e começa a discutir quem tem o direito de existir politicamente.
Ely Carneiro de Paiva é professor da Unicamp e autor do livro “1897: A República polarizada e o atendado contra Prudente de Morais”, que narra alguns dos principais acontecimentos do primeiro governo civil da República



