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Os algoritmos não nos deixam descansar

Por Clécio Branco

26 de setembro de 2024
Tempo de leitura: 3 mins de leitura

Os bons livros são aqueles que lemos com lentidão, pois não queremos que terminem. Na verdade, vemo-nos em estado de solidão quando terminamos de ler bons livros. Isso aconteceu comigo em O nome da rosa, de Umberto Eco.  

Vamos adiando sempre um pouco, para que a leitura não chegue ao fim. Os livros são bons companheiros. Porém, terminar a leitura de um bom livro nos dá uma sensação de solidão.  

No entanto, é preciso resgatar o hábito de concluir etapas em nossos dias, a fim de experimentarmos não a solidão do abandono, mas o prazer da solitude. 

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A rigor, as pausas e os ritos é que estão desaparecendo. Hoje há uma grande dificuldade em concluir, em “fechar” o ciclo para entrar na pausa do repouso da noite. 

Embora o tempo seja o mesmo, os dias ficam inconclusos, como se eles se prolongassem noite adentro. Assim também acontece com as semanas, os meses e os anos.  

É comum ouvir nos rádios e nos noticiários: o ano que se findou não acabou. As pausas são o tempo em que escolhemos o silêncio da calmaria e da lentidão.  

As pessoas não terminam seus dias — elas continuam trabalhando em casa, e as pausas e o ócio têm desaparecido de nossas vidas. Dormir mais um pouco, andar descalço na grama ou na areia, mostrar-se um pouco mais lento e preguiçoso, tudo isso está ficando cada dia mais raro.  

Estamos sempre sem tempo, correndo de um lado para o outro, sem saber para onde estamos indo.  

Depois de tudo, quando, exaustos, caímos em nossas camas, os algoritmos não nos deixam descansar: o cérebro interrompe a melatonina, como se dissesse à glândula pineal: “Vamos, ainda não anoiteceu, o dia não terminou.”  

Estamos perdendo o tempo dos términos. A sociedade do desempenho quer interromper o término de tudo. Chegará o dia em que nem mesmo nos deixarão morrer em paz. No ato de morrer está a última mercadoria a ser vendida; morrer é contra a economia. Nosso modo de vida depende da morte adiada. 

— 

Clécio Branco é psicólogo, doutor em Filosofia e autor do livro “Isso não é um chapéu – Reflexões a Respeito de O Pequeno Príncipe”. 

Redação LC

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