Eu tinha seis anos de idade quando vi uma orca de perto pela primeira vez, em 1988. E não era apenas uma baleia; eram duas. Haviam chegado dos Estados Unidos aproximadamente três anos antes. Para a maioria das pessoas, mais uma razão para não deixar de vê-las realizando truques bobos em um tanque pequeno, escuro e inóspito: uma experiência que, embora cruel, ilógica e de mau gosto, era vista como suntuosa, divertida e educativa – os mesmos argumentos que tentam justificar o injustificável até hoje, 38 anos depois.
Por que ainda julgamos aceitável – ou até mesmo inteligente – transformar a privação de liberdade e autonomia de animais sencientes, sabidos e indispensáveis para a manutenção da vida de todas as espécies que coexistem neste planeta, incluindo a nossa, em entretenimento?
Bem, considerando que a última exibição de um zoológico humano aconteceu há menos de 100 anos, em 1958, na Bélgica, essa nossa conduta não surpreende – inclusive, se eu fosse mais jovem, talvez preferisse escrever que, no momento, dispomos de um total de zero pessoas surpresas com as atitudes da humanidade. Não só visitamos animais confinados com absoluta – e também assustadora – naturalidade, como ainda fingimos ser normal se divertir com isso.
Um paradigma de comportamento que está relacionado a fenômenos psicossociais, como a busca por validação, o desejo de pertencer a um grupo e a necessidade de demonstrar poder e controle – o que é, no mínimo, paradoxal, já que muitas das espécies que ambicionamos dominar podem nos matar com um abraço.
Contudo, é justamente nessa antítese que tropeçamos em uma outra possível explicação, menos complexa e mais pragmática, que, além de nos ajudar a entender por que ainda insistimos na prática retrógrada de prender os animais e reduzi-los a artigos de exibição, também diz muito sobre o nosso comportamento social atual acerca de qualquer debate: a preguiça oportuna de pensar.
Nem mesmo as instituições de ensino parecem se preocupar em fomentar o pensamento crítico: passeios e saídas pedagógicas para zoológicos, aquários e afins revelam um certo descompromisso em educar para argumentar, questionar, contestar – não excluindo a hipótese de o plano ser exatamente esse, claro.
Tal e qual a nossa omissão como sociedade. O pretexto é quase sempre o mesmo: “ah, mas o meu filho nunca vai ver um elefante de perto?”, “ah, mas a minha filha nunca vai ver um urso de perto?”, “ah, mas os meus filhos nunca vão ver uma baleia de perto?” – sem contar a equivocada defesa da tese de que só é possível estudar minuciosamente as características desses animais aproximando-se deles. Para desconstruir esse conceito, basta lembrar que as crianças aprendem inúmeras particularidades sobre os dinossauros sem nunca terem visto um exemplar vivo para tanto.
Assim, se nós, humanos, somos mesmo um animal pensante, antes tarde do que nunca para agirmos como tal: que sejamos capazes de desenvolver a consciência moral de que, quando visitamos um animal em cativeiro, não estamos aprendendo sobre como ele é; estamos aprendendo sobre como nós somos.
Carol Zerbato é defensora dos direitos dos animais explorados pela indústria do entretenimento, uma das madrinhas do Santuário de Elefantes Brasil e autora do livro “Por que prendemos os animais?”



