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Quem ainda está aqui?

Por Luiza Fariello

10 de abril de 2026
Tempo de leitura: 3 mins de leitura

Vinicius de Moraes contou certa vez que compôs a letra de “Gente Humilde”, uma das mais belas canções da música brasileira, inspirado, como diz a letra, pelas casas e pessoas muito simples do subúrbio que avistava enquanto se deslocava de trem. Os versos, que receberam a parceria de Chico Buarque, foram feitos no final dos anos 60 para a melodia composta em 1945 por Garoto, que infelizmente não chegou a conhecer a letra. 

Mais do que nos fazer chorar de emoção, a canção tem o poder de nos humanizar; é um chamado para que a gente olhe ao redor, perceba. Esse convite talvez fosse bem mais difícil de ser aceito nos dias atuais, em que as pessoas – seja nos trens, ônibus, calçadas, salas de espera ou qualquer outro lugar que se pense – estão muito mais preocupadas em contemplar as telas do que flores tristes e baldias. 

O desligamento das pessoas em relação ao lugar em que moram, pois cada vez mais priorizam os relacionamentos e os espaços virtuais, foi um dos sintomas abordados por Zygmunt Bauman na obra “Amor Líquido”. Para o filósofo, essa indiferença ao entorno seria o mais basilar dos afastamentos sociais, culturais e políticos de nosso tempo. Como podemos estar em todos os lugares, estamos também em lugar nenhum: simplesmente não pertencemos. 

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Perdemos o sono por sofrimentos que se passam do outro lado do mundo, o que é legítimo e prova da enorme capacidade de empatia do ser humano, mas somos cegos com as mazelas que acontecem no nosso bairro – onde certamente temos mais capacidade para interferir. Conhecemos a rotina do influencer que nem sabemos onde mora, memorizamos até o nome de seus filhos, mas custamos a lembrar se nos perguntam o nome do nosso vizinho. As redes, de fato, apenas reforçam o modo de vida corrida, alienante e obrigatoriamente produtiva disseminado de forma massificadora pela lógica neoliberal em que estamos imersos. 

No mundo virtual, os laços se tornam cada vez mais frágeis e efêmeros; as pessoas, mais substituíveis. As redes sociais parecem, em verdade, bastante antissociais, terreno propício à disseminação do ódio por pessoas covardes demais para fazê-lo presencialmente – estão aí os redpills para provar. Nas redes multiplicam-se os linchamentos virtuais e as loucuras nocivas em massa, como é o caso da recente onda da magreza extrema. 

Embora existam boas iniciativas e redes virtuais de apoio para as mais variadas questões, é preciso dar cada vez mais atenção para o real, acompanhar a lógica das crianças, que nos convidam a observar a fileira de formigas que se faz infinita no chão e a nuvem, antes que se desfaça. Antes que estejamos tão distantes que não seja mais possível alcançar a poesia e a música, ou mesmo a “vontade de chorar” de Vinicius e Chico. 

*Luiza Fariello é professora de Língua Portuguesa, doutoranda em Literatura na UnB e autora de “Um corpo para Jaime”, romance sobre a solidão contemporânea e a fragilidade das relações virtuais 

 

Redação LC

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