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O sistema que devora a própria humanidade

Em “Ouroboros”, Igor Girão retrata uma sociedade submarina que mede o valor humano pela utilidade, perfeição e obediência, evidenciando a urgência da luta anticapacitista

24 de abril de 2026
Tempo de leitura: 4 mins de leitura

Sobreviver tem um preço e, no submarino Ouroboros, esse preço é a própria liberdade. No romance de Igor Girão, após um desastre que tornou a superfície da Terra inabitável, a humanidade passa a viver em uma estrutura tecnocrática rigidamente controlada, que promete estabilidade, progresso e harmonia desde que todos obedeçam e não façam perguntas. Nesse sistema, a vida funciona como uma grande engrenagem social, na qual cada indivíduo precisa provar sua utilidade enquanto cientistas e autoridades buscam aperfeiçoar a espécie por meio da tecnologia e da engenharia genética. 

Sony é uma jovem cega e de inteligência extraordinária que precisa provar seu valor em uma comunidade onde o capacitismo estrutura as relações de poder. Pessoas com corpos e mentes fora do padrão são desumanizadas, consideradas descartáveis e enviadas para Findemburg, uma prisão-laboratório de experimentos científicos. 

Em contrapartida, Bento é filho de um cientista e resultado do Projeto Engendro, que busca criar o Homo Perfectus por meio de modificações genéticas desde a concepção. Moldado para atingir a perfeição física e intelectual, ele se torna símbolo desse ideal, mas carrega o peso das expectativas e da falta de autonomia sobre a própria vida. Já o escritor Alex Petrov, personagem também central na trama, passa a questionar o regime, tornando-se dissidente e confrontando as estruturas de poder da sociedade em que vive. 

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À medida que a narrativa avança, as três trajetórias se cruzam e revelam as falhas e crueldades dessa ordem, aproximando-os de uma luta contra o controle, a exclusão e o capacitismo, denunciando a desumanização de corpos considerados “improdutivos”. Cada um, a seu modo, passa a confrontar e expor o sistema que sacrifica a humanidade em nome da eficiência, do progresso e da perfeição. 

A cidade submersa se movia em ritmos próprios, engrenagens novas em motores velhos, e cada canto tinha seu som característico: ali, o ranger agudo das travessas; adiante, o ronco baixo das baterias em carga; em todos os lados, o burburinho humano, incessante.
Ouroboros, p. 40

Com elementos de distopia, suspense e ficção científica, Igor Girão convida o leitor a refletir sobre formas de sufocamento muitas vezes vividas em silêncio. Ao levar essas tensões para um cenário extremo, o autor transforma em narrativa sensações de pressão, vigilância e inadequação que muitos experimentam no cotidiano. 

Ouroboros é um símbolo mitológico representado pela serpente que devora a própria cauda. No romance, essa imagem funciona como metáfora de um sistema que busca se preservar a qualquer custo, mas que acaba corroendo a própria humanidade. “A obra não busca apontar vilões individuais, mas expor a lógica de um sistema que confunde desempenho com valor, controle com cuidado e sobrevivência com sucesso”, conclui o autor. 

FICHA TÉCNICA
Título: Ouroboros
Autor: Igor Girão
Editora: LC Books 
ISBN/ASIN: 978-65-84222-04-5
Páginas: 352
Preço: R$ 75,90 (livro físico) e R$ 19,90 (e-book)
Onde comprar: Amazon e Livraria.ME
Baixe a capa do livro em alta AQUI.
Baixe a foto do autor em alta AQUI.

Sobre o autor
Formado em Biblioteconomia, Igor Girão coordena o Setor de Leitura Acessível da Biblioteca Pública Estadual do Ceará, onde atua diretamente na promoção da acessibilidade cultural. Cadeirante e com baixa visão, tornou-se o primeiro homem com deficiência múltipla a concluir um mestrado em Ciência da Informação no Brasil. Também é mediador de leitura formado pela Fundação Demócrito Rocha. Na literatura, estreou com Além do Véu, uma fantasia urbana com elementos do folclore que subverte a imagem tradicional do anjo benevolente. Agora lança Ouroboros, distopia que questiona estruturas de poder e expõe fraturas da sociedade contemporânea.
Rede social do autos: Instagram

Tags: Ficção
Redação LC

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